Com a Selic em 15% ao ano — a maior taxa em 20 anos — os bancos elevaram as taxas de financiamento imobiliário para 11–12% ao ano, e uma parcela enorme de compradores em potencial simplesmente parou de assinar contrato. O efeito já apareceu nos números: as unidades financiadas caíram 11% no 1º semestre de 2025 frente ao mesmo período de 2024, segundo a ABECIP. É a chamada demanda reprimida: existe, tem renda, quer comprar, mas está esperando os juros cederem.
Essa espera tem um preço. Cada 1 ponto percentual de queda na Selic incorpora cerca de 160 mil novas famílias ao mercado de financiamento imobiliário — pressionando os preços para cima de forma quase imediata, segundo estimativas da Abrainc. Em 18 de março de 2026 o Copom deu o primeiro corte em quase dois anos, levando a Selic de 15% para 14,75% a.a.; na reunião seguinte, um segundo corte trouxe a taxa para 14,5% a.a. As concessões de crédito via SBPE (poupança) devem crescer cerca de 15% em 2026, e as via FGTS, cerca de 5%.
Vale um detalhe técnico que muita gente ignora: mesmo com a Selic caindo, as taxas de financiamento imobiliário seguem na casa de 11–12% a.a., porque o crédito habitacional é financiado majoritariamente pela poupança (SBPE), que tem remuneração e teto regulatório próprios — menos sensíveis à Selic do que outras linhas de crédito. Isso muda o efeito por faixa de imóvel: o segmento médio (R$ 700 mil a R$ 1,5 milhão) segue mais pressionado pelo custo do financiamento, enquanto imóveis acima de R$ 2 milhões dependem menos de crédito tradicional e reagem menos às oscilações dos juros.
Enquanto isso, quem espera não fica parado no preço: incorporadoras corrigem o valor das unidades na planta pelo CUB/SC, que acumulou +4,81% nos últimos 12 meses. Ou seja, quem aguarda a Selic cair para comprar mais barato corre o risco de pagar mais caro pela mesma unidade quando decidir entrar.